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A COVID-19 E OS DOIS BOTÕES
Publicado em 26 de Janeiro de 2022 16:40
Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza
Nesta semana meu pai, um médico de 84 anos, escreveu um “post” no FaceBook alertando pessoas contra os riscos contínuos da pandemia: “fui vacinado com a terceira dose há dois meses e estou com covid.” Foi imediatamente saudado por uma multidão de negacionistas, elogiado por demonstrar que a vacina não funciona.
Não foi isso, obviamente, o que ele quis dizer. Idoso, sofrendo de enfisema, sabe perfeitamente que deve sua sobrevivência à vacinação contra o coronavírus. Insistia, como eu sempre faço, que a vacina é necessária, mas não suficiente para proteção . Está naturalmente frustrado com a repercussão.
Eu continuo acreditando que a população geral é inteligente o suficiente para entender que o mundo não tem só os botões on e off . Somente pessoas mal-intencionadas podem dizer que, ao insistir que precisamos usar máscaras e evitar aglomerações, os especialistas estão deixando implícito que as vacinas contra a covid-19 não funcionam.
A saúde pública não pode ser um palco para torcidas organizadas. Confesso que ainda estou em choque com o circo montado sobre uma investigação de possível evento adverso vacinal em criança de Lençóis Paulista-SP. Efeitos colaterais de vacinas são assunto sério. Em respeito à criança envolvida e à sua família, a investigação de possível nexo entre a vacina e o quadro observado deve ser rápida, responsável, técnica. O que vimos foi o contrário – centenas de compartilhamentos de notícias falsas (a comprovação do nexo causal por pesquisadores da Unesp nunca ocorreu) e a vinda a Botucatu de dois ministros que, sejamos claros, nunca demonstraram nenhuma solidariedade às famílias das crianças vítimas de covid-19.
Se fizermos uma busca na internet, vamos facilmente encontrar imagens do “modelo de queijo suíço” ( swiss cheese model ) para proteção da saúde durante a pandemia. Nestas, está claro que as medidas de prevenção são insuficientes quando isoladas (as fatias têm furos) mas muito eficazes quando realizadas em conjunto. Portanto, não é demais insistir: a vacina é uma parte da proteção. A outra são as medidas não farmacêuticas – uso de máscaras e distanciamento social.
Estudos mostram que pessoas vacinadas com três doses tem chance 85% menor de ser internadas por infecção com a variante Omicron. Isso é muito bom, mas não significa “zero chance” de um vacinado adoecer, ser internado ou até morrer.
Na última semana, as mortes por covid-19 subiram 150% no Brasil. As UTIs voltam a apresentar grande ocupação, inclusive na faixa etária pediátrica. A maior parte das internações e óbitos ocorre em não vacinados. Mas há aqueles que, mesmo imunizados, se infectam gravemente por exposições banais em festas, encontros familiares ou mesmo ao sair na rua sem máscaras.
A covid-19 não se tornou endêmica. O crescimento do número de casos é assustador. Para todos nós da linha de frente, o quadro é de prontos-socorros lotados e falta de leitos de isolamentos. Parece que a população assumiu que a covid-19 tornou-se agora “uma gripinha”, e isso não é verdade.
Amigos, a vida não tem só dois botões. A pandemia é complexa, novas variantes aparecem onde e quando mais a doença é transmitida. Insistir na importância de não se realizarem festas, de pessoas evitarem aglomerações em geral e no uso rigoroso de máscara não significa desacreditar as vacinas. Elas salvaram muitas vidas. Se nos cuidarmos, salvaremos ainda mais. Se cobrarmos posicionamento firme das autoridades, estaremos do lado da saúde, da ciência e da vida.
A escolha é, mais uma vez, nossa.
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